Hoje acordamos às 7h da manhã, novamente para treinar, dessa vez com o mestre da casa. Essa foi minha primeira oportunidade de treinar com o Mestre Jogo de Dentro, com a sorte de uma turma pequena, em que o mestre podia dar bastante atenção a todos nós.
Começamos formando a bateria e tendo uma aula sobre musicalidade. O mestre nos chamou a atenção sobre a importância de sabermos os significados das músicas que cantamos na roda. Como exemplo, o corrido “tim tim tim lá vai viola” tem o sentido de chamar um jogo mais duro, “pau viola”! Isso eu ainda não sabia! Tocamos, cantamos, improvisamos.
Mestre Virgílio ficou nos assistindo.
Depois, fizemos mais umas duas horas de movimentação. Muito trabalho de resistência, com os movimentos básicos. Depois, jogamos em duplas. Novamente quase 4 horas de treino, no total!
O mestre Jogo de Dentro falou bastante durante o treino. Algumas mensagens importantes que ficaram para mim foram:
- A importância da calma e da paciência na capoeira. Mestre Jogo contou que demorou 10 anos até que seu mestre, João Pequeno, lhe deu a permissão para ir a outras rodas de capoeira e que ele nunca havia pedido para sair. Contou que, sempre que podia, passava tempo treinando e ficando perto do seu mestre, e quando não podia ir treinar, fazia os movimentos sozinho, em sua casa. No dia em que o mestre João Pequeno achou que ele podia sair, disse para ele ir aprender a capoeira lá fora e filtrar o que achasse bom e ruim para levar consigo. Ou seja, fazer suas escolhas de forma autônoma, agora que já tinha mais segurança de si.
- A importância de escutar os mais velhos. Na tradição africana, os mais velhos falam e os mais jovens ficam a maior parte do tempo apenas escutando. Essa é uma importante forma de aprendizagem. Mestre Jogo de Dentro contou que assim fazia quando estava junto dos velhos mestres, quando não havia oficinas e palestras sobre capoeira. Era um privilégio quando os mestres o chamavam para escutar as estórias.
- Importância da resistência – treino de base, repetidas vezes.
- O respeito ao outro. O mestre contou uma estória em que mestre Pastinha foi acertado com um rabo de arraia por um camarada na roda e, no mesmo jogo, ele teve a oportunidade de acertá-lo de volta, com o mesmo movimento, mas parou o pé! Essa era a filosofia de mestre Pastinha, por isso a seguimos.
- A diferença entre o jogo e a vadiação. O mestre contou como ficava admirado ao assistir mestre João Pequeno e João Grande na roda, fazendo um jogo bonito, que era mais vadiação. Chamou a atenção de que isso está se perdendo na capoeira, pois hoje as pessoas querem só pegar o outro, de qualquer jeito, e competir, ganhar pontos.
Vamos vadiar, vamos vadiar
Capoeira de Angola, é bonito de se olhar!
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Depois do treino, eu estava esgotada. Saímos para comprar algo para comer, na companhia de Mestre Virgílio e Alan. Fomos escutando as estórias do mestre e suas “piadas”. Paramos num bar e por sugestão do mestre e tomamos a primeira gelada do dia. Momentos esses especiais, que fazem valer a pena o cansaço e o investimento de estar aqui!
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